sábado, setembro 23, 2006

Viginti Tres (parte 2)


O entusiasmo da bebé era enaltecido pelo brilho dos seus olhos quando Asrae lhe entregava os utensílios necessários para escrever uma carta: uma folha de papiro e uma caneta de tinta permanente.
Ambas estavam sentadas junto àquela estapafúrdia escrivaninha aprimorada em vinhático que se encontrava colocada a um canto do quarto. A ocupar o centro estava a cama espaçosa onde inúmeros arcos em ascensão tinham sido incrustados na madeira sugerindo um longo trajecto em busca de uma consciência superior.
A parede à direita era coberta por duas janelas em ogiva ligeiramente afastadas, ou não tivesse aquele Templo o cognome de Templo das Janelas Duplas. O Cisne Negro ainda era nova para tentar perceber os desígnios das janelas em par.
Na parede mais afastada, a da esquerda, estava mobiliário bem trabalhado, uma estante povoada de livros dos mais diversos géneros. Fluía ali uma excessiva magnificência material e espiritual o que levava a crer que aquele não era de todo um aposento decorado para um bebé. Seguramente aquele amplo aconchego tinha pertencido a um estudioso, presumivelmente um Sacerdote.
A pequena criança pegava na caneta de um modo peculiar. Dobrava os dedos unidos da mesma forma que pegava num talher. Era de facto alimento para o seu conhecimento.
- Como vou começar… - pensou, rebuscando as palavras adequadas ao seu subconsciente. – Ah, já sei…
- Permites que veja o que estás escrevendo? - indagou a ama inclinando a cabeça para focar a tinta húmida que secava no papiro.
O Cisne Negro encheu a boca para lançar um não. Era tão engraçado o jeito como ela usava o não tão condignamente que Asrae não se sentiu incomodada com o secretismo imposto pela criança. A Rinkinen debruçara-se completamente sobre a folha de papiro de modo a protegê-la dos olhares de soslaio da Sacerdotisa.
A forma da sua caligrafia era pequena e desalinhada. Notou que estava a dar um espaço razoável entre as palavras. De início aparentava ser um descuido pela falta de prática que tinha em escrever com uma caneta tão fina como aquela. Os seus dedos seguravam-na num ímpeto descomedido para não distanciar demasiado as letras e consequentemente as palavras. Tinha treinado as formas de todas as letras no quadro preto que o seu pai lhe oferecera. Sentir-se-ia muito mais à vontade em escrever com um giz pois se se enganasse poderia servir-se do apagador enquanto que aquela caneta de tinta permanente deslizava na folha como se tivesse vida própria.
Asrae recuava a essa altura relembrando com ternura a reacção da bebé quando lhe entregara a primeira caixa com giz de várias cores.
- Porque não há giz preto? - demandou numa pretensão premente.
- Olha minha filha, não há porque o quadro é preto… se desenhares com um giz preto num quadro preto não conseguirás ver os traços. – explicou amavelmente.
- Mar-Hir era capaz, ele vê tudo…- comentou num breve devaneio. - No outro dia tava a mostrar-lhe a língua quando ele estava de costas e ele disse: “tens orgulho na tua língua. Irás aprender a usá-la com fulgor”.
O Cisne Negro continuava a escrever lenta e descontraidamente. Havia momentos em que a caneta parecia dançar sobre a folha de tão empenhados que aqueles dedos estavam. Mordeu o lábio inferior sinal comprometedor, pois perguntava-se se a sua ama estaria a ler-lhe os pensamentos. Tinha acabado de mencionar o seu nome na carta e não era nada abonatório. Estava a referir-se ao acto carinhoso de lhe ter cortado o cabelo. Contudo, soube disfarçar o constrangimento arremessando-lhe uma pergunta inocente.
- Como se excreve excrever?
- É fácil. Eu soletro para ti. E-S-C-R-E-V-E-R- indicou a ama.
O Cisne Negro escrevia através dos sons e raramente recorria à disponibilidade da sua ama em querer ajudá-la. Algumas das suas dúvidas mais frequentes estavam relacionadas com as semelhanças sonoras do “s” e do “x”, do “k” e do “q”, bastante utilizado na linguagem Rinkinen. Quanto à acentuação decidiu não colocar pois ainda não sabia ao certo como funcionava esse sistema que enfatizava sílabas.
Atribuía o pensamento relacionado com o seu pai escrevendo de um modo mais pincelado. Seria uma pintura meramente abstracta pois rapidamente saltou de um sorriso colorido para a uma figura mais tristonha e tresmalhada. Estava espelhado na sua intimidade o martírio da sua mãe. Por um instante interrompeu o intelecto da escrita. Mostrou-se bastante reticente em como terminar a carta. O nervosismo ordenou, teimosamente, a sua mão em busca de cabelo para encaracolar e não o encontrou.
Finalizou a carta sem mais demoras enquanto esboçava uma cara aflita.
- Tenho que fazer xixi!
Ainda pensou levar a carta consigo mas confiou em Asrae que não iria bisbilhotar. Atrás de si no canto perpendicular a bebé desviou uma cortina espessa de cor carmim que encobria a divisão sanitária.
- Não espreitar! - abanou vigorosamente a cabeça antes de entrar nesse compartimento privado.
Assim que voltou, já mais aliviada, a ama perguntou-lhe com curiosidade na sua voz:
- Não vais deixar que corrija a tua carta?
- Não. Quero que seja o avô a corrigi-la. - respondeu com prontidão.
- Está certo. Vamos procurá-lo. - levantou-se cedendo à vontade da criança.
As duas saíram do quarto encontrando uma acalmia que se expandia ao longo daquele corredor luminoso. Enquanto caminhavam num ritmo lento pleno de admiração, o Cisne Negro jurou ter escutado lá bem no fundo daquele silêncio a voz inconfundível de Mar-Hir.
- Ele já chegou! - anunciou vivamente de sobrancelhas frisadas.
E lá foi ela a correr com a folha de papiro na mão direita. Era impelida pela linguagem serena própria do Ancião que se encontrava a dialogar com alguém no rés-do-chão.
A criança estava tão eufórica que descera precipitadamente os vinte e três degraus até ao piso inferior. Asrae já lhe tinha ensinado a contar até vinte e três na língua Rinkinen. Era uma prática quotidiana. Aproveitavam-se dessa escadaria para exercitar a aprendizagem dos números. Desta feita os números foram ignorados em favor das letras, da carta que tinha acabado de escrever, a sua primeira carta.

quinta-feira, setembro 14, 2006

Viginti Tres (parte 1)

A luz cristalina girava durante o tempo irredutível. Quarenta dias passaram desde o segundo aniversário do Cisne Negro.
Os seus olhos pardacentos estavam mais afastados do solo. Era uma consequência natural, a ampliação do seu centro de gravidade. As suas feições tinham mudado pois encontrava-se mais magra. Era uma evidência clara, tanto que as suas bochechas já não estavam tão salientes. Mar-Hir já não as puxava carinhosamente como era seu costume. Há hábitos que se perdem com a idade mas prontamente outros tomam o seu lugar. Como o hábito espontâneo que o Cisne Negro tinha em sorrir fora substituído pelo hábito do desgosto por estar tão distante da sua casa, dos seus pais.
O Pontífice era vigilante e perscrutava que tal abatimento estava a prejudicá-la. Nem sempre viver na Luz significaria estar imune a qualquer vendaval de obscuridade. Analisava o seu crescimento em termos de conhecimento adquirido. Mesmo já usando um vasto vocabulário, a sua aprendizagem estava a ser mais comedido do que nos seus primeiros meses de vida. Também não era de todo aconselhável ter mais pressa que o próprio tempo. O Pontífice era paciente.
- Habituar-se-á a viver próximo da Claridade Absoluta... – reafirmava convictamente o Ancião. - Serei o pavio que acenderá a chama da sua determinação.
A vida daquele inocente bebé era totalmente controlada pelo Povo do Cristal, principalmente por Asrae, que funcionava como a sua sombra e Mar-Hir como a sua luz que intercedia de quando em vez para embalá-la.
Era notório que se sentia enclausurada num exílio onde todos eram muito mais velhos. Não tinha companhia de ninguém da sua idade com quem pudesse conversar ou até brincar, caso se lhes fosse permitido tal veleidade.
Os únicos dias em que aliava a sua disposição ao brio eram os dias em que recebia a visita dos seus pais. Ou então quando visitava o Templo da Iniciação. O contacto com outras crianças cativava-lhe o espírito mais perspicaz. A sua lábia tornava-se muito mais aprimorada e agia de um modo completamente desinibido. Esses eram factores decisivos para os anos vindouros.

Na Montanha da Luz
O Cisne Negro estava alojada no primeiro andar do Templo da Luz. Havia um corredor iluminado por trinta e seis janelas rectangulares intencionalmente distribuídas aos pares. O seu quarto situava-se no flanco esquerdo desse corredor, precisamente no seu limiar.
Para lá da porta escutava-se o ruído incisivo de uma tesoura. Eram os dedos insensíveis de Asrae que seguravam tal instrumento. Tinha acabado de cortar o cabelo à bebé. A Rinkinen pegava num espelho redondo lobrigando o seu couro cabeludo com receio de se assustar. O seu trejeito impetuoso era demonstrativo do quanto detestava ter perdido os seus preciosos cabelos encaracolados. Achava, na sua mais imaculada inocência, que os seus oito cisnes a detestavam de cabelo tão curto. Era como se tivesse perdido as suas penas e deixasse de pertencer ao grupo.
Para o Cisne Negro poderia ser um acto cruel mas era um daqueles males necessários. Era a única forma de perder o tique de enrolar o cabelo no dedo. Essa peculiaridade retirava-a concentração, de se perder em constantes divagações. Ali nenhum tipo de inércia ascética seria permitido. Esse era um dos mandamentos do Povo do Cristal que tinha não só aprender como seguir. O que era contraditório pois eram um Povo que vivia afastado do tumulto, não intervinham nas frequentes divergências dos dois reinos.
A bebé na sua perfeita ingenuidade considerava tamanha rigidez, um autêntico absurdo. Era-lhe de difícil compressão a disciplina cristalina. E em abono da verdade aquele não era de todo um lugar para crianças de dois anos, fossem Rinkinens ou Margrietus. As únicas crianças filhos do Povo de Cristal eram mantidos sob o mesmo regime que o Cisne Negro: uma exígua convivência colectiva que se traduzia numa descabida dose de solidão em prol de um maior aprofundamento espiritual.
Ambas envergavam indumentárias que desciam até aos pés e eram ajustadas por cintos largos prateados. Ao Cisne Negro foi-lhe atribuída uma dessas vestes simplificadas de tom azul cândido, característica de quem servia a causa templária.
- Porque me estás a pentear? Não tenho cabelo nenhum para ser penteado! - exacerbava, olhando através do espelho invejando-lhe o cabelo longo e luminoso.
Asrae apenas respondera com o seu silêncio. Já não era a primeira vez que se encontravam naquela situação. No entender da Sacerdotisa a teimosia da bebé não iria levar a avante. Insistiu em compor-lhe o cabelo.
- Porque tenho que parecer um menino? - questionou no seu aborrecimento ao encarar aquela visão aterradora caída no chão arroxeado.
- Já te dei a resposta. – suspirou cautelosamente. - Tens a tendência em te distraíres sempre que recorres a esse tique de enrolar o cabelo no dedo. É desnecessário tal exercício, o teu cabelo já cresce encaracolado.
A Sacerdotisa da Luz notou que talvez as suas palavras tivessem saído demasiado rudes da sua boca. Por momentos esquecera-se que era a sua ama, não sua instrutora. Esquecera-se do que as crianças da sua idade necessitam, amor e conforto. Por entre o oblívio, Asrae encontrara um motivo que empolgaria a bebé de tal forma que seria a própria a esquecer-se da lástima de ter perdido momentaneamente o seu cabelo.
- Não querias escrever a tua primeira carta? Que tal começarmos agora mesmo. - definiu num sorriso encorajador.
Após a mágoa a expressão facial do Cisne Negro era colorida por um distinto contentamento. Saltou da cadeira impulsionada pela vontade em escrever para os seus pais.

quinta-feira, setembro 07, 2006

A dor da despedida prematura (parte 3)


A voz de Mariah tinha sofrido algumas oscilações durante aquele hino verdadeiramente inspirador. Se no início as suas entoações soaram incrivelmente límpidas para a ocasião, no último trecho as notas saíram-lhe vacilantes, quase ao ponto de se descontrolar de tão fragilizada que se encontrava. Mas não foi o que se sucedeu, pois baseou-se na estabilidade que a sua mãe Alissa mantivera ao longo da sua vida. Inevitavelmente a sua garganta secara quando apareceu no anexo exterior segurando a sua filha com firmeza.
Mar-Hir teria felicitado Mariah pela revelação da sua voz de soprano, considerando até que estaria à altura do Coro Cristalino, um grupo de monges que cantavam aos Deuses. Teria felicitado Mariah pelo cântico escolhido, porém felicidade era um estado que não fluía no seu coração, nem no de Har-Meand, nem tão pouco do Cisne Negro. A bebé estava virada de costas com o seu rosto aninhado no pescoço da sua mãe que por momentos tremia de emoção pela despedida indesejada.
- Preparei-lhe uma merenda e uma cesta com roupa dela… - disse ainda a recuperar o fôlego.
Prontamente Mar-Hir lançou um aceno direccionado para o veleiro para que dois dos seus marinheiros fossem recolher os mantimentos.
Seguiram-se os instantes finais daquela despedida. Har-Meand aproximara-se da sua esposa e filha que permaneciam entrelaçadas. Observou-as intimamente para, num gesto afectuoso, beijar a testa de ambas. Os Rinkinens seguiram à risca as recomendações daquele louvável cântico: uniram as mãos. A junção só se completaria a partir do momento em que fechassem os olhos para juntos se perderem por caminhos afoitos.
O Ancião e a Sacerdotisa permaneciam a uma relativa distância, esperando como mordomos. Era em circunstâncias confidentes como aquela que Mar-Hir preferia não ter que ler e sentir a mente das pessoas como o fazia inconscientemente.
Havia um propósito afinal de contas. Em torno do sofrimento marcado naqueles rostos havia um pensamento elevado, havia um dogma a preservar. Todos os que estavam ali presentes sabiam que o que estava a ser decidido ali naquela despedida era muito mais que o futuro do Cisne Negro.
Quando os Rinkinens regressaram ao mundo real os seus olhos brilhavam como cristais e as lágrimas pingavam demoradamente como se fossem gotas a escorrerem de estalactites.
- Deixa-me pegar nela…- disse Har-Meand limpando os seus olhos marejados.
Mariah assim consentiu. O pai pegara na sua filha numa atenção redobrada. Sorriu-lhe um ligeiro entusiasmo naquele momento pós-clímax.
Seguidamente elogiou o seu crescimento, os seus olhos azul-cinza mais escuros que os seus. Tocou nas faces lisas que já não estavam sujas do carvão aquando da brincadeira de há pouco. Estava bem aprumada, talvez em demasia para um bebé. De cabelo arranjado e envergando um distinto vestido branco livre de mangas, mais parecia uma princesa… e, de facto, era, aos olhos de Mariah que tivera todo aquele cuidado em produzi-la em tão pouco tempo.
Har-Meand fitou a sua esposa num semblante indicativo de que estava na hora da sua filha partir. A mulher moveu-se numa altura em que se escutava um gorjear colectivo. Eram os cisnes que vinham se despedir da sua amiga. Surgiam da esquina daquela fachada como que a pressentir que a bebé iria viajar para bem longe e não voltaria tão cedo.
Mariah olhou de relance para o Pontífice e antes que a pergunta lhe saísse dos lábios finos já Mar-Hir tinha dado a resposta.
- Os cisnes acompanharão o Cisne Negro. – declarou redundantemente.
O grupo de atlantes caminhou, num silêncio absoluto, os quinhentos metros pelo passadiço de pedra que os levava até ao porto. Atrás seguiam os cisnes numa fila invulgarmente ordeira.
A Rinkinen ergueu corajosamente a cabeça e entregou a sua filha nos braços da estria Asrae que lhe afagou as costas tentando pacificá-la.
Estava tudo preparado para partir, era só uma questão de dar o último passo, subir para a embarcação.
- Voltaremos a ver-nos muito em breve. - disse suavemente o Ancião do Povo do Cristal em jeito de despedida.
Os cisnes subiam para o interior da embarcação. Os marinheiros contaram oito, seis negros e dois brancos. Rapidamente foram colocados numa zona onde pudessem estar mais à vontade.
- Que os Deuses velem por ti minha filha…- murmurou Har-Meand abraçando-se à sua mulher.
O Cisne Negro sentiu-se desamparada que num movimento repentino, esbracejou violentamente para se libertar de Asrae. Assim que os seus pés tocaram no chão rodopiara bruscamente para voltar a correr para a sua mãe.
- Mãe, não! - agarrou-se ao braço da sua mãe, puxando em simultâneo o seu pai para junto de si enquanto chorava como uma torneira mal fechada.
No centro daquele turbilhão de sensações estava uma bebé de apenas oito meses e como seria óbvio não saberia lidar com a dificuldade da separação dos seus pais.
Nem Mariah nem Har-Meand, nem tão pouco os Sacerdotes da Luz tinham ficado indiferentes a tão instintivo pranto. Todavia seria necessário colocar algodão nos ouvidos e agir em conformidade por mais que lhes custasse.
Mariah achou não ser possível conter tamanha sofreguidão. Ainda assim encontrou forças no último esconderijo da sua alma.
- Nós visitar-te-emos, jamais te abandonarei minha filha…- inclinou a cabeça tentando explicar-lhe a quem tinha um raciocínio travado por impulsos .
Mar-Hir teve que actuar com providência para não correr o risco da bebé odiá-lo irremediavelmente. Estendeu a sua mão áspera e proferiu palavras de encorajamento.
- Vinde Cisne Negro, mostrar-vos-ei o vosso caminho, a vossa rota. Sofrer não significará a vossa derrota.
A bebé olhou pelo canto do olho aquela figura que lhe fora sempre fraterna e num ápice parara de chorar. Era como que só a voz do Ancião a serenava da mesma forma que a sua mãe. Acabou por aceitar, ainda que timidamente, a mão do seu “avô”. Embarcariam sem olhar para trás.
- Levar-te-ei ao Templo dos Sonhos…- prometera o Pontífice já na proa da embarcação.
Rapidamente o veleiro de três mastros zarpara e desaparecera no horizonte do Mar Solahum.
- Viveremos dias de luz frouxa absoluta…- pronunciou Mariah libertando o extremo pesar que havia conseguido reter por escassos instantes.
Aquela mãe, como qualquer outra que via a sua filha ser-lhe retirada tão cedo, almejava palmilhar a nado a rota da sua bebé caso fosse necessário.
- Viveremos com a esperança de um futuro brilhante para a nossa filha, para Atlântida. - replicou Har-Meand numa postura mais equilibrada.
(Próximo Capítulo: Viginti Tres: A Queda do Cisne Negro)

domingo, setembro 03, 2006

A dor da despedida prematura (parte 2)


O anexo exterior era composto por uma mesa de madeira com seis cadeiras. Havia plantas trepadeiras nos quatro cantos. Eram designadas flores de cera, as que embelezavam aquele espaço à beira-mar plantado.
O Ancião da Luz virou-se calmamente para a entrada ao escutar os passos apressados de Har-Meand.
- Desculpai a demora. Sabeis como é… - verbalizou num formalismo prosaico. - Desejardes tomar um chá? - perguntou o Rinkinen num gesto de cortesia.
- Não vos incomodeis. - dispensou num sorriso amistoso. – E não vos apresseis. – falou serenamente numa expressão sincera.
Har-Meand entreolhou os dois Sacerdotes do Cristal para depois espreitar para o interior da sua casa.
- É melhor que isto seja rápido…- murmurou friamente.
Mar-Hir também era da mesma opinião embora, por respeito, não fizesse transparecer tal disposição.
Para colmatar a tensão que pairava no ar, Asrae intercedia mostrando ao pai do Cisne Negro um pergaminho.
- Como já vos anunciei, precisarão de uma licença especial para entrar no Templo Luz. Aqui está a licença.
Har-Meand recebera das mãos da ama da sua filha uma permissão escrita na língua do Povo do Cristal na parte superior e abaixo o equivalente no idioma dos Rinkinens.
- Inicialmente tereis direito a duas visitas por semana. - declarara firmemente o Ancião mantendo contacto visual com a consonância do pai da Protegida.

No seio do lar, mãe e filha já tinham comido pão-de-ló e bebido chá preto, totalmente fermentado. Mariah levantou-se para preparar uma merenda. Se ia sacrificar a sua filha não a deixaria faminta mesmo sabendo que haveria provisões na embarcação do Pontífice.
Estava a colocar mangas dentro de uma pequena cesta feita pelas suas próprias ardilosas mãos. O Cisne Negro olhava em silêncio os movimentos titubeantes da sua mãe. Encontrava-se num estado manifestamente plangente tentando exteriorizar uma figura estrénua. O olhar da bebé que era indivisível da sua progenitora causava uma dor extrema que a mulher poisou uma vasilha para defrontá-lo objectivamente.
- Vais fazer uma viagem filha…- respondera com um ar macambúzio retendo o brotar de lágrimas a todo o custo.
- Mãe…
A respiração estertorosa da sua mãe deixava a bebé insegura. Prontamente Mariah aconchegou-a o no seu peito como se fosse um animal ferido. Solfejou para aliviar a amargura. Entoou palavras que a sua mãe Alissa ensinara quando era uma menina desconhecedora da força emocional que tal cantiga sagrada desencadeava.


Pela linha de água da minha nascença
Forma-se o riacho da minha infância
Onde flui o rio da minha juventude
Que desagua no mar da minha vida adulta
E só quando alargar o meu conhecimento
Ondularei no oceano da minha velhice
E à nova geração passarei o ensinamento
Terei alcançado, então, a plenitude

Que a aprendizagem se estenda
Cada dia é um novo dia
Que a nossa mente compreenda
O que é viver em harmonia
Pela luz do Grande Cristal que nos guia
Abençoado o mundo pela sua Benevolência
Zénite da Claridade, Religião da Condolência

Nós, que somos as crianças de honor
Representantes de um futuro pronunciado
Difundimos o Sinal da Esperança,
Nós, que somos as crianças do amor
Daremos as nossas mãos
A favor da União!


(Nota: Este mesmo cântico seria declamado pela Princesa Dolphinya na véspera de uma tragédia, cerca de 400 anos depois do nascimento do Cisne Negro)

quarta-feira, agosto 30, 2006

A dor da despedida prematura (parte 1)


Mariah já vinha sofrendo por antecipação mesmo antes do nascimento do Cisne Negro. Talvez por isso o parto tenha sido tão complicado. Nunca escondera a consternação e austeridade a partir do momento em que Mar-Hir lhe comunicara tais premonições.
- Seja bem-vindo Pontífice!
Sem demoras, Har-Meand aproximou-se para cumprimentá-lo com uma cerimoniosa vénia.
O Ancião do Cristal retribuiu com um leve aceno, quedando-se à entrada. A sua análise fora instantânea. Perscrutou a disponibilidade de Har-Meand, a perplexidade da sua esposa e o sorriso bastante forçado do Cisne Negro, sentada no banco. A bebé que costumava correr para os seus braços tendo-o como um avó, desta vez não conseguia encará-lo. Mar-Hir leu o medo na sua mente, sentia-se encurralada.
- Dar-vos-ei o tempo que precisarem. – pigarreou. - Estarei lá fora. - comunicara num tom de voz mais sisudo não querendo parecer demasiado abusivo.
Afinal de contas encontrara-os ainda com as suas vestes de dormir. Teria chegado cedo demais? Certamente era visto como um homem impiedoso. Ele próprio tinha plena consciência que, de uma forma ou de outra, estaria a encarnar um ser sem escrúpulos. Contudo, à luz dos seus olhos claros não lhe era apresentada outra alternativa viável. Agia como um eterno servo da sua clarividência.
Em passos lentos regressou ao exterior daquela moradia típica da Ilha Cabassus. Eram rectangulares pintadas em tons pastel. A maioria era composta com anexos exteriores, alguns cobertos, outros a céu aberto como era o caso. Dali podia apreciar a vista desafogada para o mar que vibrava ali não muito distante dos seus pés firmes.
Asrae, uma senhora que agia com descrição, como era apanágio do Povo de Cristal, surgia a seu lado. Mar-Hir tinha pressentido a aproximação de tal luz arguta. A Sacerdotisa de cabelos de um loiro abatido e vestes cinzentas interrompia respeitosamente os pensamentos do seu Mestre. Serviu-se de um dos seus ensinamentos, a comunicação dor telepatia.
- Será prematuro levá-la aos oito meses para o Templo da Luz?
- Mais vale ser prematuro do que tardio. - respondia laconicamente usando o mesmo método psíquico.
- Sabeis que a dor da separação irá amedrontá-la. – murmurou Asrae sobre uma evidente consequência que o Pontífice já havia previsto.
Ambos estavam conscientes dos votos que juraram perante os Deuses do Mar: guiá-la na rota do seu destino, na mágoa e no sofrimento, na alegria e na glória. Se entre os dois Elementos da Luz subsistia aquela sensação introspectiva, lá dentro, na moradia dos Rinkinens, o ambiente era definido pela dor de uma despedida prematura.
Har-Meand, que acabara de vestir uma túnica de linho castanho costurada pela sua mulher, tentava apaziguar tal vinculada angústia.
- Visitá-la-emos de tempos em tempos…
- Não é a mesma coisa. Ela é muito nova, precisa de sentir o calor de uma mãe!
A sua agitação era natural para uma mãe que a teve na barriga por um ano e agora iria deixá-la aos cuidados de um velho que seria, na sua óptica, um louco.
- E de um pai…- retorquia o pintor pegando na mão da sua filha.
Mostrou-lhe o retrato que tinha delineado enquanto ela e sua mãe tinha estado dormir.
Mariah estava por detrás dele, junto ao guarda-fato. Tinha acabado de escolher um modesto vestido negro para receber tão ilustre visita.
- E porque não nos avisou que vinha hoje roubar-nos a nossa filha? - queixou-se deliberadamente num tom provocatório.
O seu marido olhou-a de relance sem dar muita importância a tal desaforo. Preferia aproveitar aquele momento de um modo pacífico. Sentara-se no banco com o Cisne Negro no seu colo.
- Acho que podes terminar aqui este contorno. Toma, o pai ajuda.
O Cisne Negro recebera um lápis de carvão e estaria a rabiscar ao acaso não estivesse a mão habilidosa de Har-Meand a dirigi-la no traçado do seu cabelo encaracolado, negro como o próprio carvão.
A bebé continuava em silêncio. Normalmente estaria a divertir-se a pintar durante um tempo indeterminado. Naquela ocasião demonstrava algum aborrecimento. O seu pai apercebera-se na sua pouca vontade. Sentia-a como uma luz frouxa, exactamente o período do dia em que tinha nascido.
- Ela não pode ir de estômago vazio. – indicou a mãe numa voz enfraquecida.
Àquela altura estava, finalmente, convencida de não poderia contrariar a sua partida. Desejava impedi-lo mas não se atreveria.
Har-Meand baixou os braços fazendo menção de se levantar com a sua filha quando Mariah lhe sugeriu que fosse ao encontro do Pontífice enquanto as duas iriam tomar o pequeno-almoço. Concordou, admitindo que aquele momento deveria ser aproveitado entre as duas.
- Mas primeiro tens que lavar as mãos… - pegou no lápis de carvão. - … e o rosto também! – gracejou ao sujar propositadamente o rosto da sua filha com carvão.
O Cisne Negro esboçou um sorriso efémero. Sentia que aquele seria o dia mais triste da sua vida. O primeiro dos muitos que se seguirão.

sábado, agosto 26, 2006

O Dia chegou... (parte 3)


Durante o silêncio clamoroso que se seguiu, Mariah inclinou o corpo, já refeito da gravidez, procurando saber qual o verdadeiro motivo da inércia do Cisne Negro. Era minimamente perceptível que estava acordada no entanto mais parecia que estava a dormir de olhos abertos. O rosto estava demasiado descorado, realçando ainda mais aquele aspecto sombrio.
A sua mãe é que não perdera tempo em tentar adivinhar, qual profetisa convicta de que poderia ler a mente da sua filha. Seria o tão falado instinto maternal a agir em desespero de causa.
- Ela sabe que vai embora… é injusto a nossa filha ser-nos retirada assim! Não está certo!- recalcitrou revoltando a colcha e lençóis de um rosa mais claro que a matiz afogueada da sua pele quando perdia o controlo emocional.
Har-Meand levantava-se movendo a cabeça negativamente considerando que Mariah estava a deixá-la ainda mais atemorizada. O pintor baseava-se numa condescendência em relação ao futuro da sua filha, o que não poderia ser traduzida pela falta de amor que nutria por ela. Amava-a até mais que a sua própria vida e no entanto era muito mais comedido que a sua mulher.
- Não existe justiça nem injustiça aqui. É o que tem que ser feito, é a vontade dos Deuses.
- É a vontade de Mar-Hir queres dizer! - resmungara Mariah elevando o tom da sua voz atirando uma almofada para o chão emadeirado.
De um momento para o outro o seu rosto empalidecera ao denotar que os seus gestos veementes afastaram a sua filha para o canto da cama. A mãe extremamente zelosa, mimava com afagos sucessivos nos cabelos encaracolados da sua mais-que-tudo.
- O Pontífice Mar-Hir acredita ser esse o seu karma e consequentemente o nosso. Sabes muito bem que tudo foi feito para impedir que ela nascesse durante a Luz Frouxa e…- Har-Meand voltara-se a sentar na cama junto ao Cisne Negro encarando-a. - … foi esse o seu destino! Temos que ser mais tolerantes. Acredito que a nossa filha terá um papel preponderante no futuro de Atlântida.
O Cisne Negro permanecia entregue à tal expressão vazia embora já não estivesse naquela posição contraída como se fosse uma tartaruga a esconder-se na sua carapaça. Levantou-se espontaneamente, tomando a direcção da janela. Subiu o banco redondo onde o seu pai se sentava para pintar e esgueirou-se para o exterior. O seu olhar fixava o horizonte marítimo. Era como se o mar a tivesse chamado pelo seu nome, o seu verdadeiro nome, não a alcunha que fora atribuída.
Mariah e Har-Meand fizeram menção de ir atrás dela pois corria o risco de cair mas o seu sinal fora para que se afastassem. Deixaram-na estar considerando que lhe fazia bem receber aquela fresca aragem matinal.
- Porque temos que seguir tudo o que Mar-Hir nos diz? Porque temos que seguir as suas ilusões, fantasias, sonhos?- contestava Mariah insistindo com aquela discussão mantendo a devida atenção na sua filha.
- Para travar esta realidade, guerra, pesadelo!- contrapôs Har-Meand.
No quarto ao lado estava Asrae, que ouvia a discussão sem ter como o evitar. Nem se atreveria a participar, pois o Povo do Cristal era conhecido por serem meros observadores e não intervenientes dos problemas alheios.
A tensão do Cisne Negro avistava a aproximação de um veleiro numa altura em que o seu pai criticava o seu próprio reino sem sentir pudor algum.
- Vivemos tempos conturbados, os dois reinos conspiram na escuridão…- tomou uma pausa reflectiva. - … a guerra pode eclodir a qualquer momento…!
Har-Meand não confiava na serenidade de Suas Majestades desde o nascimento da sua filha. O seu cepticismo aumentara aquando das suas visitas, principalmente naquele momento em teve que desenhar sobre a tela um retrato do Rei e da Rainha segurando a sua filha.
- Barvaatus pode ser tão maquiavélico como aquele que se senta no trono dos Margrietus. Quanto à Rainha Rinna não lhe perscruto nada, permanece na sua sombra.
Tais pensamentos revelados demonstravam o quanto Har-Meand não era adepto da função da realeza mas sim da religião.
Chocada, pelo seu marido ter cuspido todos aqueles disparates contra a corte, Mariah não se desviara do que estava em causa.
- Como Mar-Hir está tão seguro do futuro da nossa filha? Que premonição terá visto para crer que ela é a divina representação da paz… afinal de contas não sabemos nada!
Entretanto houve um vulto que apareceu junto à porta semi-aberta. Mariah apanhara um susto de coração. O Cisne Negro virava-se sabendo de antemão de quem se tratava. Não era a Sacerdotisa Asrae como os seus pais supunham.
- O futuro é imperceptível… mesmo para mim… - falou calmamente uma voz envelhecida pelo tempo.
Por detrás da porta aparecia um senhor alto de roupagens imaculadas e longo cabelo grisalho.
- Pontífice Mar-Hir…- Mariah engolira em seco
- Perdoai-me o aparecimento repentino mas… chegou o dia…
E instantaneamente Mariah sentiu uma pontada lancinante no peito como se tivessem a comer o seu coração à dentada.
(Próximo Capítulo: "A Dor da Despedida Prematura")

segunda-feira, agosto 21, 2006

O Dia chegou... (parte 2)


O célere veleiro tomava a direcção sudoeste. O destino é a ilha Cabassus, onde vivem os pais da Predestinada. Será hoje que os primeiros fios do seu karma serão tecidos. Iniciar-se-á no Templo da Luz com apenas oito meses. É fundamental habituar-se desde tenra idade a estar tão perto da Luminosidade Absoluta para que dê asas à perspicácia que já vai demonstrando.
O tão falado dia chegara antes do previsto. O fatalismo é inadiável.

Na ilha Cabassus
Um aprazível aroma de incenso fluía no quarto. Ambos os reinos praticavam os seus rituais de devoção e superstição. O arder incenso era um desses actos de fé próprios dos Rinkinens. Dizia-se que, acima de tudo, atraía o bom augúrio. Mal sabia Har-Meand que, ao acendê-lo, o efeito seria exactamente o oposto.
O alvor cristalino incidia sobre mãe e filha sempre inseparáveis. Har-Meand tinha puxado a cortina azul-turquesa e abrira a janela convidando a translucidez a entrar em sua casa. Uma moradia de artistas numa ilha maioritariamente povoada por artistas de diversas áreas.
O homem de rosto largo, queixo forte e cabelo negro bem aparado, moveu-se no silêncio para não perturbar aquele leito de tranquilidade em que a sua mulher e filha se encontravam.
Permanecera junto à janela, quando decidiu começar a rabiscar na sua tela. Sentara-se num banco redondo e de imediato começou a delinear os primeiros traços de mais um retrato.
Do outro lado do quarto estavam Mariah e o Cisne Negro bem aconchegadas numa cama exposta na horizontal. Era de madeira com insígnias atribuídas à linguagem rinkinen. As paredes brancas eram cobertas com alguns quadros com flores pintadas a óleo. A contrastar com esses quadros de tons pitorescos haviam outros dois mais significativos. Foram desenhados a carvão e estavam expostos na parede onde a cama estava encostada. Um mostrava o Cisne Negro deitada no berço manifestando a sua extrema boa disposição. O outro era nada mais que uma visão cómica, uma caricatura de Mariah com um corpo imperceptível, a não ser a sua barriga oval, e uma cabeça a ocupar quase todo o espaço da tela exibindo uns lábios exageradamente carnudos. Fora desenhado durante a gravidez de Mariah que durou doze meses.
Na verdade os lábios de Mariah eram finos, o seu rosto pálido facilmente enrubescido consoante as suas reacções emotivas, os seus cabelos não muito longos eram de coloração louro-acastanhada, os seus olhos verde-montanha eram uma perdição, tanto que ofuscavam as suas sobrancelhas pouco visíveis.
Após alguns minutos de gestos executados sobre a tela, a mão de Har-Meand parara repentinamente. Mariah finalmente mudara de posição ligeiramente atordoada com aquele luzir diáfano. Constatou que o Cisne Negro já estava acordado permanecendo imóvel, de olhos bem abertos. Nessa altura já Har-Meand tinha o esboço elaborado. Iria terminá-lo posteriormente. Aquele quadro serviria de estímulo quando a sua filha já não estivesse ali na sua companhia.
O pintor voltou para a cama puxando a colcha toldada por um rosa escuro. Desviou uma das almofadas com desenhos bordados pela sua mulher, para beijar a testa da sua filha que expressava um ar pleno de mistério.
- Então filha que tens? Tens frio? Tens fome?- perguntara deliberadamente a mãe ao afagar carinhosamente o braço da sua filha.
- Não… Ele vem aí…
A resposta saíra seca da boca do Cisne Negro que estava deitada de lado com o corpo encolhido. Teria mesmo respondido? Ainda era muito nova, ainda estava a começar a falar. Por vezes os seus pais tinham uma vaga sensação de que alguém falara por si. Pudera, o seu crescimento estava a efectuar-se de um forma estonteante, deixando-os à deriva num mar de espanto.
- Ainda deve estar ensonada…- considerou Har-Meand, afastando-se um pouco para lhe dar espaço.

quinta-feira, agosto 17, 2006

O Dia chegou... (parte 1)

O vento trazia de bom grado o som do sino dos anjos da Basílica Anjira. Escutei doze badaladas criando fugazes vibrações no veleiro onde me encontrava. O tempo decorria na sua inevitabilidade, até mesmo para este ancião que já não se recorda ao certo da sua idade…
Não forçarei a minha mente a esse raciocínio, há assuntos mais proeminentes em causa. Não posso descurar da minha missão: proteger o Cisne Negro, indicando-lhe quais os caminhos da Luz e os da Sombra. Chegará uma altura em que ela tomará as suas opções para o bem ou para o mal.
O tempo urge… oito meses passaram desde o seu nascimento. E, naturalmente, crescera bastante após aquele dia tão invulgar. Fora o mesmo tempo que a tornara numa menina traquina. Exibia um sorriso inocente dando a conhecer os seus recém-nascidos dentes. As maçãs do seu rosto estavam permanentemente ruborizadas, os seus olhos eram, na mais surrealista das naturezas, toldados de um sombrio azul-cinza característicos dos Rinkinens e os seus cabelos negros caíam aos caracóis. Um anjo rebelde, sé é que ainda existiam anjos.
Rapidamente aprendera a caminhar por si própria, de tão endiabrada que era, desejando ver o mundo de um ponto mais alto. Prestava-lhe visitas semanais e pude constatar a sua evolução.
- Esta criança não pára de nos surpreender…- acocorava-me para receber a “iluminada pelo divino” nos meus braços. - Chaere!
Compadeci-me quando a encontrei não a passear-se mas a correr pelo pátio da sua casa atrás dos seus amigos, os cisnes.
Era uma criança dotada de uma energia infindável, convidando a sua mãe e Asrae, a sua futura ama, a uma atenção redobrada.
Foi uma questão de dias até nos brindar com mais uma magnifica surpresa, quando, na sua curiosidade estimulada, começou a pronunciar as primeiras palavras. A primeira que proferiu foi “asas”, referenciando-se às soberbas asas dos seus cisnes maioritariamente de plumagem negra. A partir de então não mais parou. Rapidamente pegara em palavras que assimilara e formava frases como “Voa cisne, abre as asas!”- bracejava tentando imitá-los. “Tenho fome mamã” e “vamos pintar papá” eram outras expressões que se tornaram habituais.
Apenas com oito meses… era natural que o espanto e incerteza sobre tal criança ainda não se tinham arrefecido. Há duas semanas que o Cisne Negro frequentava o Templo da Iniciação, onde se aprende as noções primárias do conhecimento atlante. Fora necessário abrir uma excepção pois a idade mínima aceitável para ingressar em tal Templo primário era de três anos e a sua curta existência ainda não era contada por anos.
- Nunca tinha visto uma criança com uma aprendizagem tão precoce…! - comentava o abismado Heafadt, Sumo-Sacerdote daquele Templo.
- É uma espalha-brasas, é o que é!- regozijei informalmente.
No entanto não trespassava a comiseração que sentia, não só pela responsabilidade que ela irá carregar mas também pelos seus pais. Intensificara-se o tormento de Mariah tão apegada à sua filha. Sabia que estava prestes a deixá-la partir, mesmo contra a sua vontade. A sua inconformidade não se desvanecia nem com o cansaço nem com o bom senso de Har-Meand…

terça-feira, agosto 15, 2006

Personagens de "Lost-Keys: The Black Swan"


Rinkinen (Reino do Norte de Atlântida)
Cisne Negro (a bebé que nasceu durante a “Luz Frouxa” do Grande Cristal); Caliel (discípulo do Templo da Natureza); Mariah (Mãe do Cisne Negro); Har-Meand (Pai do Cisne Negro); Barvaatus (Rei); Rinna (Rainha); Equam (Guerreiro); Kristellya (?)

Margrietus (Reino do Sul de Atlântida)
Mirthis
(Princesa); Tireu (Guerreiro); Rhanos (amigo de infância do Cisne Negro); Litharn (Rei); Heidei (Rainha); Viderya (Sereia); Perthyan (Príncipe); Harturus (?)

Povo do Cristal:
Ancião Mar-Hir (Pontífice, “avô” do Cisne Negro); Asrae (Sacerdotisa do Templo da Luz, ama do Cisne Negro) Adelius (?)

sexta-feira, agosto 11, 2006

Entre o Profano e o Sagrado (parte 2)

Deixei o Cisne Negro por ora. Seria imperativo ausentar-me para sossego dos seus pais, Mariah e Har-Meand. Estavam informados de que quando menos esperassem iria privar-lhes do que de mais precioso o seu amor lhes tinha proporcionado. Teria preferido não o fazer se me fosse facultada tal opção. Mas a esta criança estavam destinados grandes feitos. Precisava de prepará-la desde tenra idade. Por enquanto ainda poderia brincar inocentemente na companhia dos seus progenitores sem imaginar a vida árdua e disciplinada que a esperava.
Regressei ao cume da montanha mais alta de Atlântida. Aí estava situada a Grande Pirâmide, aquela que sustinha o Grande Cristal, o sol dos atlantes. Isso explica porque não havia noite, a luz giratória do Grande Cristal iluminava toda a extensão desta terra. A única indicação do findar do dia era a apelidada falsa noite, quando a intensidade da luz cristalina diminuía gradualmente.
Era precisamente essa claridade diminuta que se abatia agora no quinto e último dia da celebração do seu nascimento. As festividades tinham terminado na cidade Poseidonis, bem no coração de Atlântida.
O povo recolhia às suas casas. Uns ainda cochichavam, por detrás da luz minguante, sobre aquele extraordinário acontecimento. Por certo alguns achariam que tal bebé, por ter nascido nas horas frouxas estaria realmente condenado e a sua vida seria um autêntico inferno. Conseguia perscrutar tais pensamentos apenas com um ligeiro olhar direccionado aos rostos daqueles que pressentiam o medo. Poderiam pressenti-lo mas por outras razões. Sei muito bem que alguns a viam como um bode expiatório resultante de um conflito já de si evidente entre os dois reinos.
E nem toda a realeza, principalmente os Margrietus, via com bons olhos toda aquela importância, como se tivesse nascido uma Princesa, herdeira ao trono dos Rinkinens. Afinal de contas tratava-se apenas de uma mera plebeia Rinkinen.
Daí que mantivesse a minha máxima protecção mesmo não estando presente a tempo inteiro. A acompanhar o Cisne Negro e os seus pais, estava um enviado meu do Templo da Luz. Era Asrae, uma Sacerdotisa da Luz. Digamos que era a minha valiosa cartada para que os dois reinos olhassem primeiro para o seu jogo a ponto de reflectirem sobre que jogada iriam efectuar a seguir. Estariam dispostos a desafiar este velho?
Os quatro pernoitaram no Templo da Maternidade e aí permaneceram por mais dois dias, até a mãe estar completamente restabelecida. Em breve iria recebê-la sob a luz deste Santuário. As marés mudam constantemente. O tempo mudará também quando o Cisne Negro abrir as suas asas.

(Próximo Capítulo: o dia chegou…)

segunda-feira, agosto 07, 2006

Entre o Profano e o Sagrado (parte 1)


“Caminho nos meandros da Luz, o local mais sagrado de Atlântida. Aquele que divide os dois reinos existentes, os Margrietus dos Rinkinens.
Como deveis calcular a cobiça pelo poder de uma terra onde coabitam dois povos pode ser fatal para o futuro deste mundo.
Como Sumo-Sacerdote o meu dever é pacificar os ânimos, sensibilizar as duas facções da nobreza em particular e do povo em geral.
Represento o Povo do Cristal, o meu nome é Mar-Hir. Garanto-vos que sou velho o suficiente para tropeçar na minha barba e desequilibrar-me. Essa foi uma visão que já tive outrora e que se concretizou uma semana depois. Chamam-me de Profeta por possuir uma natural clarividência. Tão natural como a minha barba. Tinha um dom de adivinhar pensamentos, segredos e até acontecimentos vindouros.
Mas nem sempre o futuro era tão claro como água. Nem sempre conseguia discerni-lo correctamente. E naquela altura o futuro parecia estar comprometido com a Escuridão. O negrume cercava as minhas visões. A incerteza assolava o meu espírito.
Durante um certo período mantive-me em cativeiro no Templo da Luz numa profunda meditação. Estava convicto de que os soberanos de cada reino poderiam aproveitar a minha ausência para difundirem as suas movimentações conspiratórias. A guerra já tinha começado muito antes de eles se terem dado conta.
Rezava aos Deuses pedindo-lhes que me mostrassem um sinal de esperança para a desgraça que se avizinhava.
Uma mãe gritava horrorosamente, dando à luz algures, durante a luz diminuta do Grande Cristal. Por mais esforços que tivessem feito para evitar tal heresia, o bebé iria nascer precisamente nessa altura. Seria a primeira vez que tal aconteceria. Indubitavelmente esse bebé e seus pais seriam condenados pela sociedade.
As visões mostravam-me o contrário. Era uma menina abençoada, uma plebeia, filha de plebeus. E para o bem ou para o mal, o futuro de Atlântida estaria nas suas mãos.
O seu nome fora protegido por uma alcunha: O Cisne Negro, ideia do seu pai. Encarreguei-me de tutelar a criança que antes de nascer já teria um fardo demasiado pesado para carregar. O seu nascimento fora seguido segundo o protocolo real, um pedido que direccionei aos dois reinos numa assembleia extraordinária.
Foi perante a estátua do Grande Deus Poseidon que me responsabilizei pelo nascimento desta criança, ao invés de decidir pelo seu aborto. Certa ou errada, foi essa a escolha que fiz. Quis prepará-la logo desde o seu primeiro dia de vida.
Numa era onde a discórdia era facilmente atiçada apenas pela força do pensamento, previa que os olhares traiçoeiros dos Reis iriam disputar tal criança. Almejariam transformá-la numa escrava do mal e assim subjugar um povo ao outro.
A guerra já se tinha instalado. Apenas permanecia silenciosa”.

sábado, agosto 05, 2006

The Black Swan: Myth or Reality?


The tradition said that whenever there was a royal birth the festivities would last five days. And for the record, the Black Swan wasn’t from the royalty; she descended from the common people. Her birth shouldn’t be so extraordinary to be celebrated during five long and cheerful days. But how everyone, even now, knows her as one of the Greatest Princesses of the north’s breed and no one knows her real name? Was she favored by the Gods even if she was born in the weak state of the Great Crystal? All the births in Atlantis are controlled to occur during daylight don’t ask me why. Many facts are vague, imprecise, some of them are lost.
It’s known that in a remote time, there were two kingdoms coexisting in Atlantis. The Rinkinens were the one of the north, and the one of the south were the Margrietus. There still was an independent religious tribe, the Crystal People who protected the Great Crystal, the Sun of that hidden land.
Presently there is only one united kingdom, and that restrict group of high-priests. They live in the Temple of Light near the Pyramid of the Great Crystal. Only they have the keys to the secrets of Atlantis. They are the ones who guard all the doors, all the locks, all the books, all the testimonials written about the History of this land.
There is a collection of ancient books named The Lost Keys. Very few have access to its confidential information, only the Pontiff Mar-Hir and his five closest priests have that privilege. Even the Kings don’t have any kind of permission to take a look. Some more curious have used the force and tried to steal them but each and every one of them have failed. We’re talking about a restrained group of priests who knows different arts of magic. They can do things that no one dreamed of.
Now, the Pontiff Mar-Hir will tell us one of those stories. He chose the ancient language of the Rinkinens to enlighten us about the mystery of the Black Swan, a nickname that endures until now. She was the one who unified all the habitants in one kingdom yet no one knows her real name. And her name was…

quarta-feira, agosto 02, 2006

The birth of the black swan

There was a lot of fuss in the false night in Atlantis. Everyone was talking about the birth of a child. They were saying that she was cursed by their Gods just because no one gives birth when the lights of Great Crystal are weak and low. They say it’s a bad omen. We all know how people can be easily influenced by religion. And they obfuscated ideas.
Well, perhaps she was blessed by the Gods from the distant land where their parents came from.
People were gathering around when her aunt started a song. And from the beginning their faces were shocked as they couldn’t understand the Rinkinen’s tongue.
There was someone who had to translate her mysterious and haunted words, an old man in the crowd. It was something like this:

“In the weak florescence a baby girl was born.
She’s beautiful! She has no name other than
A nickname given by her father: “the black swan”

Her parents are very delighted and compromised
We feel that this frozen wind is trying to paralyze
The celebration of life but nothing can distract us
From the light that shines between all the roses

Since her first cry she has to deal
With the fate of a vampire
Our Majesties already admired
Her grace, she has strength and will

She has the pale resemblance
That she earn from her parents
Her mother is already making plans
Soon she will walk and dance

But for now…
We will guard your cradle, you can sleep
And dream about the wonders of the deep”

domingo, julho 30, 2006

Prelude

My name is Luigi and that's it. For the moment I won't talk about myself.
These primary words are to introduce this character that you find a bit similar to Snow White. But she is nothing a-like. So you ask me: Is she real? Well, you have to find by yourselfs.
All I can say is that she touched my soul in such a deeply way yet we don't see each other vey often. But she is always on my heart.
Human language cannot define the greatness of her soul. She looks upon life with such joy and determination. She have this incredible strength that even if she's pulled to the shadow and being complety lost she would find a way with light of her will.
Maybe she isn't that perfect, only a human with those virtues and imperfections that we have. However, I find her between angels and demons. She isn't a reencarnation of a godess neither a devil. Yet she have those devilish eyes and the touch of an angel.
You don't know her, she's simply herself and no one is like her.
Soon I will talk about the stories of the lost keys. Very soon...

sábado, julho 29, 2006